Existe um sofrimento tipicamente brasileiro que ninguém comenta em terapia mas que deveria: a angústia de trocar de imóvel.
Não é frescura. É real. A pessoa encontra um apartamento melhor, mais bonito, melhor localizado, com uma vista que faz o coração disparar — e aí trava. Fica semanas, às vezes meses, remoendo. E o que eu tenho agora? Vou perder dinheiro? E se aparecer algo ainda melhor? E se eu me arrepender? A cabeça humana, quando bem treinada, consegue transformar qualquer decisão boa numa fonte inesgotável de sofrimento preventivo.
É um talento, convenhamos.
O problema não é a dúvida. A dúvida é saudável, a dúvida é inteligente, a dúvida é o que separa o ser humano do cachorro que late para o próprio reflexo. O problema é quando a dúvida vira morada. Quando a pessoa não está mais avaliando um imóvel — está habitando a indecisão como se indecisão fosse um lugar seguro. E não é. Indecisão é o cômodo mais frio que existe.
Há uma crença silenciosa que carregamos desde criança: a de que existe a escolha perfeita esperando em algum lugar, e que nossa obrigação é encontrá-la antes de agir. Que se esperarmos mais um pouco, pesquisarmos mais uma página, visitarmos mais um apartamento, a certeza absoluta vai aparecer na nossa frente como uma revelação divina com planta baixa e vaga de garagem incluída.
Não vai.
A certeza absoluta não existe no mercado imobiliário. Não existe na vida. O que existe é o momento em que você olha para um lugar e sente — não pensa, sente — que é ali. Que aquela janela é sua. Que aquela vista vai ser boa para você. Que aquela cozinha vai ver muitas refeições felizes. Esse sentimento não é impulso. É reconhecimento.
E reconhecimento merece respeito.
Tem gente que passa anos num imóvel que não a representa mais, que ficou pequeno demais ou grande demais, que mudou de endereço da alma antes de mudar de endereço no correio. Fica ali, desconfortável, adiando. Esperando o momento certo. Mas o momento certo é sempre agora — ou pelo menos é sempre muito mais agora do que a gente imagina.
A vida não é o que vai acontecer quando tudo estiver resolvido. A vida está acontecendo enquanto você pesquisa, compara, hesita e adia. Está acontecendo nas janelas que você não abriu, nas manhãs que você não acordou com aquela vista, nas tardes que poderiam ter sido melhores num lugar que te cabia melhor.
Isso não é um argumento para a irresponsabilidade. Não estou dizendo que se deve comprar qualquer coisa de qualquer jeito. Estou dizendo algo mais simples e mais verdadeiro: dentro das suas possibilidades reais — não das imaginárias, não das ideais, mas das reais — existe uma escolha que é certa para você agora. E essa escolha merece ser feita sem culpa, sem tortura, sem o peso desnecessário de tudo aquilo que você não pode ter ainda.
Fazer o que dá dentro do que se tem não é resignação. É sabedoria. É a arte de não deixar o ótimo ser inimigo do bom — mas também de não deixar o medo do ótimo te prender no ruim.
O apartamento que você quer, que cabe no seu bolso, que fica no lugar que te faz bem — esse apartamento está esperando uma decisão, não uma epifania.
E a vida, essa senhora impaciente e linda, não tem o hábito de esperar você terminar de sofrer para começar.
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