Tem cidades que começam no centro. BC começou no canto.
No lado norte, o antigo Pontal Norte dos anos 70 — carinhosamente chamado de “Canto da Praia” — era exatamente isso: um recanto. Casinhas simples entre a vegetação. Um ribeirão largo cortando a paisagem. O verde dos morros descendo até o mar com a desenvoltura de quem não precisa impressionar ninguém.
O nome “Bairro Pioneiros” é mais do que simbólico: ele evoca pessoas e famílias que se estabeleceram ali há décadas — e que deixaram seus nomes gravados nas placas de rua como quem assina uma obra antes que ela se torne famosa.
Ali havia algo que as cidades costumam perder antes de aprender a guardar: o começo.
E os começos têm uma dignidade que o progresso frequentemente ignora.
A Barra Norte foi por muito tempo o avesso da cidade. Enquanto a Barra Sul ganhava molhe, turistas e cartões-postais, o norte ficava ali — fiel, quieto, esperando a sua vez sem fazer alarde. Quem morava naquelas ruas sabia de uma verdade que o espetáculo da Avenida Atlântica não conseguia apagar:
“Quem mora aqui prefere o lado de cá. É mais calmo, mais tranquilo, a gente aproveita a vida.”
Aproveitar a vida. Frase simples. Difícil de construir.
A transformação veio. Mas veio com outra qualidade — não a da demolição, mas a do reconhecimento.
O novíssimo Molhe do Pontal Norte chegou com 300 metros adentrando o mar — iluminado, seguro, generoso com quem quer caminhar de tarde e sentir o vento de frente sem precisar ir a lugar nenhum. Veio o Deck do Pontal Norte — 810 metros de extensão que desembocam na Praia do Buraco, um lugar tranquilo, sem o vaivém de turistas da Praia Central, com faixa de areia longa e mar calmo.
E veio a Roda Gigante.
A FG Big Wheel foi inaugurada em dezembro de 2020 e, antes mesmo de dar o primeiro giro, já havia transformado o Pontal Norte no local mais fotografado de Balneário Camboriú. Oitenta e dois metros acima do nível do mar. A cidade inteira vista de uma só vez — os arranha-céus ao sul, o verde ao norte, o oceano em todas as direções.
Uma cidade que aprendeu a se ver de cima.
Hoje, quem chega ao Pontal Norte encontra a FG Big Wheel, o Molhe, o Deck à beira-mar e a vista emblemática da Estrada da Rainha, que funciona como cartão-postal. Comércio, serviços, academias, bares — tudo aquilo que faz um bairro funcionar de verdade, não apenas nos fins de semana de verão.
O antigo “Canto da Praia” tornou-se endereço desejado — onde o afluxo de serviços, comércio e novas torres residenciais passou a conviver com a história do lugar.
Isso é raro. Quase uma arte.
Para o arquiteto e urbanista Gabriel Gallarza, em Balneário Camboriú a própria transformação já é uma identidade local. Faz sentido. Uma cidade que não tem medo de se reinventar desenvolve uma espécie de coragem estética — a certeza de que mudar não é trair, desde que se saiba o que guardar.
A Barra Norte guardou o molhe com o nome de Celina Caetano Miguel — uma mãe cuja memória está eternizada nas águas da Barra Norte, homenagem conquistada pelos filhos com esforço e afeto. Guardou as ruas com os nomes dos que chegaram primeiro. Guardou a paisagem dos morros, o deck entre as árvores, o mar quieto da Praia do Buraco.
E ganhou uma roda gigante que gira para todo mundo ver.
Há bairros que crescem. Há bairros que amadurecem.
A Barra Norte amadureceu sem perder o caráter. Tornou-se sofisticada sem ficar arrogante. Abriu-se ao mundo sem fechar a porta para quem sempre morou ali.
É o norte da cidade. É também, de certo modo, a sua bússola.
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