Um lar não se desenha apenas com paredes, aberturas e coberturas. Isso basta para erguer uma casa. Lar é outra coisa. Lar se faz quando o espaço deixa de servir apenas ao corpo e passa também a amparar o espírito. Quando a arquitetura entende que viver não é apenas circular entre cômodos, mas respirar bem, repousar bem, ouvir o próprio pensamento, reconhecer a passagem da luz sobre a madeira, sentir o tempo desacelerar ao atravessar a varanda. Sempre desconfiei das obras feitas apenas para impressionar. A arquitetura que mais dura não é a que grita. É a que acolhe. É a que sabe recuar para que a natureza avance. É a que abre espaço para o vento, para a sombra, para o silêncio. Uma casa deve permitir que a manhã entre com delicadeza, que a tarde encontre abrigo, e que a noite devolva recolhimento. Construir um lar é, antes de tudo, escolher o que merece permanecer. A matéria tem grande responsabilidade nisso. Madeira, pedra, barro, linho, cal, ferro. Materiais honestos, que envelhecem sem perder dignidade, que guardam o toque, a temperatura, a memória. A perfeição excessiva, por vezes, esteriliza. Já a matéria viva aproxima, aquece, enraíza. É preciso ainda proteger a calma. Um lar sem resguardo sonoro, sem sombra bem posta, sem um canto de recolhimento, perde parte de sua função mais nobre. A casa deve oferecer pausas. Um banco sob a janela. Uma mesa onde a conversa se alonga. Um pátio onde o tempo não tem utilidade prática alguma. Um quarto em que o mundo se afasta o suficiente para que o descanso seja inteiro. Não aprecio a ideia de que todos os ambientes devam dizer tudo de uma vez. Há beleza no que se revela aos poucos. Um corredor que conduz a um jardim inesperado. Uma parede espessa que guarda frescor. Uma porta que emoldura a luz do fim da tarde. A casa deve ter ritmo, respiração, intervalo. E, talvez acima de tudo, um lar precisa admitir a vida como ela é: imperfeita, afetiva, construída em camadas. Não se faz casa verdadeira apenas com novidade. Faz-se também com lembranças, objetos que atravessaram anos, texturas que trazem o passado para dentro do presente, marcas que não precisam ser apagadas. A morada mais serena é quase sempre aquela que não tenta parecer recém-nascida todos os dias. Se eu tivesse de resumir o ofício de projetar um lar, diria isto: deve-se construir para que a vida encontre repouso. Deve-se desenhar para que a natureza entre sem violência. Deve-se escolher cada elemento não apenas pelo efeito que causa, mas pela paz que sustenta. Porque, no fim, uma casa bem projetada não é a que se impõe ao morador.
É a que o devolve a si mesmo.
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