Eu aprendi a desacelerar
David Rodriguez

Tem uma coisa estranha que acontece com quem vai morar em Balneário Camboriú. A pessoa chega com aquela pressa de cidade grande ainda no corpo — o andar rápido, o olhar para o celular, a sensação permanente de estar atrasado para alguma coisa que nem sabe bem o quê. E aí, num determinado dia, sem aviso prévio, sem cerimônia, sem nenhum guru de autoajuda envolvido, a pessoa para.

Simplesmente para.

Eu demorei a entender o que tinha acontecido. Achei que estava ficando preguiçoso. Achei que estava perdendo o fio. Mas não era isso. Era que Balneário Camboriú tem um talento silencioso e perigoso: deixa tudo perto. E quando tudo está perto, a urgência some. E quando a urgência some, você começa a se perguntar por que diabos passou tanto tempo correndo.

A praia está a dez minutos. Não a praia prometida do fim de semana que nunca chega, não a praia do planejamento que vira frustração — a praia de hoje, agora, às 17h, depois do trabalho, com o sol ainda alto e o mar ainda morno. Você fecha o computador, troca de roupa e está lá. Assim. Sem trânsito, sem odisseia, sem merecer. A leveza disso é quase insuportável para quem foi criado na cultura da merecência — aquela crença de que prazer precisa ser ganho com sofrimento anterior. Em BC, o prazer está na esquina. E isso muda uma pessoa por dentro.

A quadra de padel também está perto. Os amigos que jogam padel também estão perto. E aqui descobri que o padel é menos um esporte do que um pretexto civilizatório — uma desculpa elegante para parar de trabalhar às seis da tarde sem culpa, trocar duas horas de planilha por duas horas de risada, e depois sentar numa mesa com cerveja gelada como se isso fosse, que é, a coisa mais sensata do mundo.

Nas cidades grandes, a gente adia a vida. Adia com maestria, com disciplina, com uma dedicação impressionante. Adia a praia para o verão. Adia o exercício para segunda. Adia a conversa para quando tiver tempo. Adia o descanso para a aposentadoria — que é o maior blefe da civilização moderna, essa promessa de que um dia, lá na frente, você finalmente vai poder viver.

Em Balneário, o adiamento perde a graça. Porque o verão é agora. A segunda é amanhã. O tempo existe. Existe de verdade, com hora marcada e lugar certo — e não como abstração culpada no final de uma lista de tarefas.

Vi isso nos olhos dos mais velhos que moram aqui. O idoso que caminha na orla às oito da manhã não tem pressa de chegar a lugar nenhum. Vai até o molhe, olha o mar, cumprimenta quem conhece — e conhece muita gente, porque em BC as pessoas se encontram, as ruas produzem encontros, a cidade tem a escala humana que as metrópoles destruíram. Esse senhor aprendeu uma coisa que os jovens ainda estão tentando entender: que a vida não é o que acontece depois que o trabalho acaba. A vida é o trabalho e a praia e o padel e o sorvete e o entardecer no molhe com o sol descendo sobre o mar — tudo junto, tudo misturado, tudo acontecendo na mesma semana, no mesmo dia, às vezes na mesma tarde.

Desacelerar não é parar de produzir. É parar de confundir produção com existência.

Balneário Camboriú me ensinou isso sem cobrar nada. Sem palestra, sem curso, sem retiro espiritual em cachoeira distante. Me ensinou com a brutalidade gentil de uma tarde de sol numa praia plana e acessível, com o barulho das ondas competindo com o barulho das risadas numa quadra de padel, com a simplicidade absurda de perceber que a felicidade não estava adiada.

Estava aqui. Estava esperando.

Eu é que estava atrasado.