A cidade dos idosos que não constrói para eles
O mercado de senior living em Balneário Camboriú ainda é quase inexistente, e isso é estranho, porque a cidade, famosa por abrigar os prédios mais altos e mais valorizados do Brasil, também é uma das cidades brasileiras com maior proporção de idosos: quase 20% da população tem 60 anos ou mais, contra cerca de 12% da média nacional — sem contar aqueles que não têm moradia definitiva aqui, mas vivem alternando os dias entre suas cidades de origem, perto dos filhos e dos netos, e Balneário Camboriú, onde encontram o clima e a qualidade de vida ideais para descansar e aproveitar essa fase da vida. São mais de 30 mil idosos — muitos deles aposentados de alto poder aquisitivo, que escolheram a cidade justamente pela qualidade de vida, segurança e infraestrutura. E, no entanto, o mercado imobiliário local praticamente os ignora, tendo como fator preponderante o até então defasado Plano Diretor, que impunha áreas mínimas aos apartamentos.
Basta olhar para a nossa cidade para entender o descompasso. As torres de luxo que se multiplicam na Barra Sul, na Avenida Atlântica e agora no Centro e na Avenida Brasil foram sempre projetadas para investidores, turistas e compradores de segunda residência. O Plano Diretor da cidade sempre empurrou o mercado para cima, para atrair o público de alta renda — uma visão equivocada de que valor tem que estar ligado a tamanho, e que encheu a cidade de mais do mesmo. Mas quase nada de moradia pensada para quem envelhece: unidades com acessibilidade real, áreas de convivência para a terceira idade, imóveis menores e com mais serviços e interação social. Os idosos estão carentes dentro das suas grandes casas. BC merece ter o melhor do senior living.
O cliente ideal do senior living em Balneário Camboriú já está na cidade
A ironia é que o público está ali, com dinheiro na mão. Idosos de alta renda são, em tese, o cliente ideal: compram à vista ou com entrada robusta, não dependem de longos financiamentos e buscam um produto pelo qual pagariam prêmio, porque simplesmente não existe alternativa. Os bancos, aliás, já perceberam o movimento — Itaú, Bradesco e Banco do Brasil ampliaram recentemente os limites de idade para crédito imobiliário. O setor financeiro se mexeu; as incorporadoras de Balneário, não.
Por que não constroem? Em parte, por inércia: o modelo de negócio da cidade foi calibrado durante décadas para a valorização especulativa do metro quadrado de frente para as praias, e mudar de produto exige repensar terreno, projeto e operação. Senior living não é só arquitetura — é serviço contínuo, equipe de cuidado, gestão hoteleira, espaços de convivência desenvolvidos para experiências realmente compartilhadas. É mais complexo e menos glamouroso do que construir as maiores residências do mundo. A notícia boa é que o Plano Diretor mudou — e vamos ver o que os políticos e os construtores vão apresentar para esse público nos próximos anos.
O envelhecimento do Brasil não é tendência, é certeza estatística: em 2060, quase um terço da população terá mais de 60 anos. A cidade que hoje ergue torres para investidores tem a chance de liderar o mercado imobiliário do futuro — um mercado cujo cliente já mora lá, já tem renda e já espera há tempo demais por um imóvel feito para ele. Ignorá-lo não é apenas uma falha social. É, cada vez mais, um mau negócio.
