Existe um lugar no sul do Brasil onde a vida decidiu, de uma vez por todas, parar de se desculpar por ser bonita.
Balneário Camboriú não é discreta. Não tem aquela timidez envergonhada das cidades que escondem suas qualidades como se beleza fosse pecado. Não. BC — como os íntimos a chamam, com a familiaridade de quem ama — ergue seus prédios como quem diz: olha pra mim. E a gente olha. E não consegue mais parar.
Há algo de revolucionário num lugar plano. Num mundo que exige de todos nós que subamos ladeiras — metaforicamente, literalmente, nas cidades históricas de pedra e sofrimento —, chegar em Balneário e descobrir que o chão é liso, generoso, democrático, tem o gosto de uma surpresa gentil. O idoso que cansou de se agarrar em corrimões; a senhora que trocou o joelho mas não trocou o prazer de caminhar ao entardecer; o casal que quer passear de mão dada sem que a rua conspire contra eles — todos encontram aqui uma cidade que parece ter sido desenhada por alguém que um dia foi velho e não esqueceu.
A orla é um espetáculo de democracia afetiva. Ali convivem a criança que corre para o mar sem pedir licença, o jovem musculoso que age como se o calçadão fosse uma passarela particular, e o avô de boné que caminha devagar e vê tudo — e vê mais do que todos. A bicicleta passa. O sorvete derrete. O sol, aquele velho dourado e sem vergonha, ilumina as ondas com uma generosidade que não combina com o pessimismo.
E os passeios. Ah, os passeios. O Morro do Careca convida os mais corajosos a subir ainda na madrugada para ver o dia nascer sobre o mar — e recompensa qualquer um, em qualquer hora, com aquela vista que faz a gente calar a boca por uns instantes. O teleférico do Parque Unipraias sai da Barra Sul, corta a Mata Atlântica e desce até a Praia das Laranjeiras, uma das mais calmas e protegidas da região, abraçada por montanha verde dos dois lados como se o mundo tivesse decidido fazer uma exceção ali. Para quem prefere o nível do mar, tem a roda-gigante Big Wheel, na Barra Norte, com cabines climatizadas e 20 minutos de volta sobre a orla inteira — o tipo de passeio que envergonha qualquer adulto de bom senso e diverte a todos sem exceção. E o Deck do Pontal Norte, uma passarela de 800 metros em madeira que percorre a base do fim da Praia Central, de graça, sem cobrar nada de ninguém, como se a cidade quisesse provar que nem tudo precisa de ingresso para ser bonito. E a Barra Sul, com o rio encontrando o mar e os barcos piratas saindo para a Ilha das Cabras, produz um daqueles cenários que fazem a gente ficar quieto por uns instantes — que nem o Jabor diria, o instante em que a máquina da vida parece se explicar.
Mas Balneário não é só contemplação. É também barulho. É festa. É gente.
A cidade tem o dom de inventar pretextos para celebrar. Os eventos se sucedem com uma determinação quase cômica: shows nacionais, festivais gastronômicos, feiras, festividades juninas que chegam em junho e parecem não ter pressa de ir embora. A cidade pulsa. A cidade não descansa. E quem mora aqui acaba adotando esse ritmo como se sempre tivesse sido o seu.
E então chega o Réveillon.
Meu Deus, o Réveillon de Balneário Camboriú.
Há quem diga que o Réveillon do Rio é maior. Talvez. Mas em BC, o mar está mais perto. Quando os fogos explodem sobre a praia de 6 quilômetros e a multidão vira o rosto para o céu com aquela expressão infantil que a felicidade produz nos adultos, algo acontece que vai além do espetáculo. É como se a cidade inteira respirasse fundo e dissesse: estamos aqui, estamos juntos, e isso é suficiente.
Pessoas vêm de todo o Brasil. Vêm do mundo. Vêm de países que também têm praias e fogos mas que atravessam oceanos de propósito para ver este. Porque há uma energia no Réveillon de BC que não se explica em brochura turística — só se sente. É a energia de uma cidade que acredita no ano que vem. Que acredita no ser humano. Que acredita, contra todas as evidências do noticiário, que a vida merece ser festejada com fogos coloridos e champanhe barato e abraço em desconhecido.
Isso é, no fundo, a essência de Balneário Camboriú.
Uma cidade que resolveu que viver é um ato de coragem otimista. Que o presente merece atenção. Que a beleza ao redor não é cenário — é convite. Que o idoso tem direito à orla plana e ao sorvete de creme. Que o evento de amanhã justifica dormir cedo hoje. Que o fogão aceso do Réveillon, visto da janela do apartamento alto, é talvez a coisa mais bonita que existe sob o céu do sul.
Em algum momento, toda cidade escolhe seu temperamento. Balneário Camboriú escolheu a alegria.
E não está arrependida.
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